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Anuros oferecem benefícios para o meio-ambiente

publicado: 09/03/2026 10h19, última modificação: 09/03/2026 10h19
Brasil é considerado o país com a maior biodiversidade desse tipo de anfíbios do mundo
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Ao contrário do que prega o senso comum, sapos, rãs e pererecas não são vetores de enfermidades | Foto: Fagner Delfim/Arquivo pessoal

por Nalim Tavares*

No imaginário popular, ser um sapo é uma punição — o animal que as bruxas dos contos de fadas escolhem para transformar príncipes e princesas em criaturas que, supostamente, são difíceis de amar. A realidade, no entanto, é bastante diferente: anfíbios desempenham um papel fundamental na natureza, e são aliados importantes para a sobrevivência — e até para o bem-estar — do ser humano. Apesar disso, os benefícios que essas espécies trazem para o planeta estão em risco: sensíveis à mudanças ambientais e cercados por preconceitos, os anfíbios representam os vertebrados mais ameaçados do mundo.

Sapos, rãs e pererecas fazem parte da ordem Anura, o maior grupo de anfíbios do planeta, que começam a vida na água, em fase larvária, e migram para o ambiente terrestre quando crescem e perdem a cauda. Atualmente, o Brasil é considerado o país com a maior biodiversidade de anuros do mundo — uma liderança que exige responsabilidade, visto que centenas de espécies são endêmicas. De acordo com a última lista oficial, publicada em 2021 pela Sociedade Brasileira de Herpetologia (SBH), 1.144 espécies, incluindo as exóticas e invasoras, vivem no país. Destas, 59 podem ser encontradas na Paraíba. 

A Coleção Herpetológica da UFPB conta, atualmente, com um acervo de aproximadamente 30 mil exemplares e amostras de mais de cinco mil tecidos coletados desses animais | Foto: Gabriel Celestino/Arquivo pessoal

Para a bióloga Beatriz Moura, sapos, rãs e pererecas são vitais para o equilíbrio dos ecossistemas. “Os anuros atuam simultaneamente como presas e como predadores de uma grande variedade de animais. Essa característica os torna fundamentais no controle de populações de insetos, ajudando a controlar pragas e vetores de doenças,” explica. Mosquitos como o Aedes aegypti, um dos principais transmissores de arboviroses como dengue, zika e chikungunya, integram o cardápio dos anuros, por exemplo.

Além do controle de pragas — que favorece não só a saúde humana, como também a manutenção natural de lavouras — os anuros possuem outra função ambiental: a presença deles funciona como bioindicadores. Em decorrência da respiração cutânea, que exige uma pele fina, úmida e permeável, e da sua reprodução que, em sua maioria, depende da água, os anuros absorvem muito facilmente quaisquer substâncias que estejam presentes no ambiente. O problema é que não existe filtro: se houver substância nociva na água ou no solo, como agrotóxicos, metais pesados e outros poluentes, sapos, rãs e pererecas vão absorvê-las. “Esses elementos podem adoecê-los ou levá-los à morte. Dessa forma, o desaparecimento ou a redução dessas populações serve como um alerta de que a qualidade daquela região está comprometida,” Beatriz esclarece.

Esses anfíbios também contribuem para o desenvolvimento científico, e têm se mostrado muito importantes para a medicina. “A pele dos anuros pode conter compostos químicos complexos que servem de modelo para pesquisas científicas, possibilitando o desenvolvimento de novos medicamentos,” afirma Beatriz. Segundo ela, a preservação dessas espécies anfíbias garante não apenas a saúde dos ambientes, como também o avanço de tratamentos para a saúde humana, a partir da produção de antibióticos, pomadas, analgésicos e remédios contra alguns tipos de doenças.

Ainda, pesquisas apontam que certas substâncias extraídas da pele e das glândulas de alguns anfíbios possuem potencial terapêutico, e poderiam ser utilizadas para tratar transtornos psiquiátricos como depressão e ansiedade, conforme exposto pela bióloga e técnica administrativa da Coleção Herpetológica da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Taís Borges: “Costumam dizer que os anfíbios são o boticário da natureza. Eles produzem muitos compostos, diversas substâncias que a gente pode estudar e, a longo prazo, depois de muita pesquisa, sintetizar e utilizar em diferentes produtos.”

A Herpetologia é o ramo da zoologia que se dedica ao estudo de anfíbios e répteis. Criada em 1977, a Coleção Herpetológica da UFPB, atualmente, conta com um acervo de cerca de 30 mil exemplares e amostras de mais de 5 mil tecidos coletados desses animais. Do laboratório, deriva-se um projeto de extensão coordenado por Taís, que procura conectar os saberes da universidade à sociedade. Denominado “A Coleção Herpetológica da UFPB divulgando a ciência: conhecendo e preservando os répteis e os anfíbios”, o projeto — que pode ser acompanhado através do Instagram, pelo perfil @chufpb — realiza atividades de educação ambiental e luta para desmistificar os preconceitos e mitos que envolvem os répteis e os anfíbios.

“Eu digo que esses animais não fazem parte da ‘fofofauna’. Muito pelo contrário,” brinca Taís. “Por isso, a gente acaba acreditando em muitos mitos envolvendo os anfíbios. Dizem que são bichos sujos, mas é o contrário. Estamos falando de organismos muito sensíveis, que têm a pele extremamente delicada e que fazem respiração cutânea. Essa sensibilidade, na verdade, fez com que anfíbios desenvolvessem mecanismos para manter a pele limpa,” divulga.

Beatriz Moura explica por que o medo de sapos é injustificado | Foto: Arquivo pessoal

Ainda, Beatriz Moura acrescenta que, ao contrário do que o senso comum prega, sapos, rãs e pererecas não são vetores de enfermidades. “Os principais mitos que cercam esses animais costumam envolver crenças de que eles lançam veneno nos olhos, que sua urina pode causar cegueira ou que o contato com a pele deles causa verrugas, o que é biologicamente impossível,”ela lista. “Na realidade, o veneno dos anuros é uma estratégia de defesa contra predadores e microorganismos, e ele só entra em ação se o animal for abocanhado, ou se alguém apertar suas glândulas (estrutura onde o veneno é produzido e armazenado) e levar a mão à mucosas (olhos, boca, etc.),” discorre.

Para combater a desinformação, o medo injustificado e a violência sofrida por esses animais, Beatriz idealizou o Reino dos Sapos, um projeto independente que funciona como braço de divulgação científica da sua pesquisa de mestrado. Hoje, o projeto conta com uma equipe de 20 pessoas, que inclui professores, técnicos e alunos de graduação e pós-graduação. “Compartilhamos nossas ações e informações sobre o universo dos anuros no perfil @reinodosapos no Instagram, onde buscamos aproximar o encantador mundo dos anuros das pessoas,” conta Beatriz.

Desde meados do século passado, as populações de anfíbios têm enfrentado reduções significativas, conforme pesquisa divulgada pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). De acordo com a instituição científica, nos últimos 40 anos, mais de 120 espécies desapareceram do nosso planeta.

Segundo Beatriz, o Brasil abriga 196 espécies ameaçadas de extinção e, no estado da Paraíba, duas delas se destacam, oficialmente classificadas como vulneráveis: a rã-alagoana e o sapo-de-língua-coração-de-Alhandra. Ambas as espécies são endêmicas do país, e tem sua sobrevivência dificultada, majoritariamente, pela perda de habitat. “O sapo-de-língua-coração-de-Alhandra enfrenta um desafio específico, que é a coleta ilegal de bromélias,” revela a pesquisadora. “Como sua reprodução é obrigatoriamente associada a essas plantas, a retirada das bromélias do ambiente natural destrói seus locais de reprodução e coloca a continuidade da espécie em risco.”

Somado a perda de ambiente adequado para sua vida e desenvolvimento, essas e outras espécies de anuros também precisam lidar com as mudanças climáticas e a disseminação de doenças. “Por serem animais ectotérmicos, a temperatura corporal dos anuros depende do ambiente externo. Como possuem uma alta dependência de umidade, o aumento das temperaturas e a alteração nos regimes de chuva podem causar desidratação e interferir nos seus ciclos reprodutivos,” diz Beatriz. “A disseminação de doenças também tem dizimado populações em escala global. O destaque é a quitridiomicose, uma doença causada por um fungo que ataca a pele desses animais. Como a pele é um órgão vital para os anuros, a infecção interfere em suas funções básicas e pode levar à morte por parada cardíaca,” ela adverte. Entretanto, considera importante ressaltar que os sapos não transmitem doenças para os seres humanos, e que não há motivo para sermos adversos a eles.

Para Taís Borges, a compreensão de que todo ser vivo desempenha um papel fundamental na manutenção dos ecossistemas, mesmo quando não trazem benefícios diretos para a espécie humana, é essencial para o equilíbrio da vida. Ela lembra que, em meio a pandemia de Covid-19, uma série de espécies voltou a frequentar lugares que estavam evitando em decorrência da interferência do homem, o que trouxe à tona, novamente, o conceito de Saúde Única —  uma abordagem integrada, popular nos anos 2000, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental.

“Eu acredito que, para alcançarmos o que prega esse conceito, precisamos ajudar a criar, nas pessoas, um sentimento de pertencimento, e fazer com que reconheçam e se interessem pela nossa fauna e nossa flora,” pondera. Segundo ela, essa seria a importância de ações de educação ambiental: aproximar os seres humanos das demais formas de vida que existem no planeta.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de março de 2026.